Luz e Trevas
23 Jan 2011 9 Comments
in "Poesia", Confissões, Filosofia, Religião
Como eu me mantivesse caminhando
Na escura estrada dentro da floresta,
A trilha reabrindo do nefando
Destino que é o final de quem se presta
A, embora agrilhoado pela vida,
Fingir-se sempre o grande mestre desta,
Visei porém à Luz enternecida:
Conquanto eu lhe fugisse na aparência,
Irracional buscava-lhe a guarida.
Mas, já que à sapiência sempre vence
A falsa chama da soberba irada,
Estava eu submetido a essa demência;
Pois vindo a luz, da luz afugentada
Minh’alma ia correndo, por inércia,
E em mesmas trevas via-se fechada.
Contudo a Alma maior à menor quer, se
A alma menor lhe foge muito embora,
E a luz me apareceu como na Pérsia:
Obscura nos contornos, negra fora,
Brilhava lá no fundo onde eu não via,
E pelo Mal chamou-me aonde agora
Contemplo o rutilar da minha Guia
E, envergonhado de fugir-lhe ao mando,
Persigo consciente o que eu temia,
Com luz na escura estrada caminhando.
março de 2010
A realidade te assalta
19 Dec 2010 Leave a Comment
in Confissões
No apartamento ao lado eles têm um cuco. Um relógio-cuco, quero dizer. O cuco canta a cada hora marcada: por exemplo, se são quatro horas, ele faz “cúcô-cúcô-cúcô-cúcô”. E não é só isso: para cada meia hora, eis também um “cúcô”. Which means, prezado leitor, que eu, uma pessoa que só sai de casa para tirar a mãe da forca, troca o dia pela noite e não faz questão de saber o que se passa com a ordem do mundo, sou OBRIGADA a saber a hora do dia por causa do cuco do vizinho! É revoltante, entende?
Como certos espelhos que nos surpreendem quando não tínhamos a menor intenção de deparar com nossa própria imagem. Espelhos invasivos, violentos, estrategicamente posicionados, como minas terrestres, em lugares públicos. É o cúmulo.
E se eu não quiser me ver no espelho? E se eu não quiser saber que horas são? Não se pode nem ser um neurastênico em paz?
É claro que não, LM. Já em Álvaro de Campos (e antes dele, e sempre) o mundo era assim: uma gaiola de neurastênicos que têm que trabalhar. Tu também tens, LM, que te integrar à ordem do mundo. Pára de frescura e vai ler cem livros.
Variações da Floresta do Alheamento
13 Dec 2010 Leave a Comment
in Meditações
Após o milagre
(…) admiro-me de mim mesmo: é como se eu temesse destruir, com um livro ou ocupação séria, o encanto do passado próximo. Dir-se-ia que me são tão caros esse sonho monstruoso e todas as impressões por ele deixadas, que eu tenho até medo de tocá-los com algo novo, para que não se desfaçam em fumaça! Serão realmente tão caros para mim? Sim, certamente me são caros; e talvez me lembre disso daqui a quarenta anos…
— Dostoiévski em “Um Jogador”. Trad. Boris Schnaiderman.
O enlevo que se segue à epifania… Lembro-me bem. A realidade faiscava, pulsava como uma bola de luz, e por micro-instantes não se sabia discerni-la do mais impossível dos sonhos. Perguntava-me — será sonho? — e não sabia responder. Mas quando por fim concluía — não, não é sonho, é isto mesmo, eu estive lá, e onde estou agora é lá ainda, pois lá continua…
Bliss.
Um momento inteiro de júbilo! Não será isto o bastante para uma vida inteira? — Precisa ser… Mas a memória de uma tamanha felicidade, ao mesmo tempo em que encoraja as expectativas futuras, condena tudo que não lhe é capaz de chegar aos pés… E a que se poderá compará-la? Jamais. Momentos irrecuperáveis, maiores que o próprio tempo. E quanto eu não daria para tornar ao segundo imediatamente anterior à delícia, aquele segundo despreparado e ingênuo que estava prestes a florescer, aquele segundo… Ah, se eu soubesse!… Ah, se…!
***
Sossego
Não verei mais Falcón e Filosofinha esse ano. Sem eles, e sem a faculdade, a minha necessidade de sair de casa fica próxima de zero. Nesse exato momento estou livre como durante o ano muitas vezes supliquei por estar. É bom. Voltar às madrugadas, aos filmes, ao silêncio e leituras inteiramente pessoais. Não que não haja qualquer tristeza no ar por essa época de despedidas. Nem é que me tranquilize a certeza de ano que vem voltar a ver o casal e viver rotineiramente; não posso dizer que sinto essa certeza, apesar de ela ser razoável. O que é — eu não sei. É uma espécie de sossego. Um sossego melancólico e cheio de vontade de se encolher num canto, e sumir numa mancha da parede.
A imoralidade da moral ou A Moral Imoral
08 Dec 2010 3 Comments
in Comportamento, Meditações, Religião, Universidade
I tell you, no virtue can exist without breaking these ten commandments
(William Blake)
Existe no homem uma percepção instintiva da fraqueza de caráter, uma força sensitiva que está aquém e além da meditação consciente, pela qual todo espírito, mesmo o mais frouxo, é capaz de sentir os covardes, os mentirosos, os hipócritas. Quando se ouve dizer às mulheres “Aquela ali é da vida! Coitada…”, e quando se é inteligente, é patente de imediato a hipocrisia automática do comentário. Uma hipocrisia, é preciso enfatizar, que não se dá no nível mais grave de erro – aquele nível em que se faz conscientemente o que se sabe errado – mas como que inconscientemente, como os cães de Pavlov salivavam ao ver a luz vermelha. Hipocrisia, lembro pedantemente, vem do grego hypócrisis, que significa atuação teatral. O vício da hipocrisia é o de compreender ou agir visando à aparência, e não à substância. Que estão fazendo aquelas mulheres? Atuando, fazendo um comentário, não pelo significado concreto que suas palavras poderiam ter, mas pelo efeito que aquilo terá sobre sua imagem exterior. Estão mostrando que são piedosas, que têm pena das pobres prostitutas. Tivessem pena verdadeira, e a última coisa que pensariam em fazer seria um comentário piedoso.
O que pensariam essas mesmas mulheres se uma delas, taciturna e concentrada, tivesse por bem retirar-se e virar a esquina? Autêntica falta de sensibilidade à miséria alheia, pensariam todas. Contudo essa mesma mulher taciturna estaria dirigindo-se ao serviço de assistência social, a dar contas do problema e tentar solucioná-lo. Aí reside a verdadeira piedade que, como se vê, frequentemente aparenta o contrário do que é. Sta. Teresa d’Ávila, quando chorava por seus pecados diante do sacrário, sofria rancorosos comentários das irmãs, que pensavam que ela queria sair da clausura e viver entre os prazeres do mundo. A virtude quase nunca é evidente, e o vício sempre se fantasia de virtude, de modo que talvez o melhor modo de reconhecer a virtude seja a aparência excessivamente explícita de vício.
Uma variante mais sutil do problema acontece quando alguém, incapaz de julgar a substância de seus próprios atos, julga a si mesmo segundo a aparência que eles hipoteticamente teriam aos olhos dos outros. Sente-se culpado por ter matado um bandido que estava prestes a matá-lo, ou por ter sentido um desejo espontâneo de fazer algo vergonhoso. Por quê? Porque, imaginando outra pessoa a saber desses fatos, julga-se como ela o julgaria, e julga-se portanto injustamente. Coisa ainda pior é quando se trata de cristão, que ao fazer isso supõe que seja esse também o julgamento de Deus a seu respeito. Atribuir tal gênero de juízo, mesquinho e mundano, a Deus não é nada menos que um pecado. Quando o juízo incide, não sobre si mesmo, mas sobre os outros, é duplamente errado, e digno de punição. Aqueles que se sentem no direito de julgar os atos do próximo, sentem-se no direito de julgar o que são incapazes de entender. São tolos presunçosos. Por isso, e não por outra razão, S. Paulo diz: “a mim muito pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por algum juízo humano”.
Assim é que aquele que compreende os mandamentos divinos como réguas (lat. regulae, regras) que podem simplesmente ser colocados ao lado dos atos humanos para medir seu nível de virtude, compreende tudo errado. Aquele que acha que pode delegar a responsabilidade de avaliar seus próprios atos, seja a um amigo, seja ao seu sacerdote confessor, está completamente enganado. O amigo e o confessor podem ter os mandamentos, mas eles não têm, não podem ter a substância do ato particular executado pelo sujeito. Essa substância se encontra somente no fato, e o fato só é totalmente acessível ao seu agente – muito embora ele precise fazer um esforço para captar essa substância, pois ela não se lhe dá de graça. A esse esforço se chama exame de consciência. Porém há uma complicação que quero mencionar:
[The anti-puritan enlightened] fear [full human responsibility] because, whenever they are aware of it, it makes them feel their nothingness, and it too they call, assuring themselves of their superiority, puritanism.
(F.R. Leavis, The Living Principle)
É que de ambos os lados, ateus cínicos e religiosos tímidos, sente-se uma repugnância natural, manifesta como ódio ou medo, à autêntica responsabilidade moral humana. A facilidade imensa de viver uma vida esquemática, em que é simples avaliar moralmente os próprios atos – basta seguir a regra, ou perguntar ao padre/pastor, ou entregar-se aos primeiros impulsos e justificá-los como “naturais” – abriga essas pessoas inseguras e lhes confere conforto, segurança. Paradoxalmente, trata-se de um conforto desconfortável, de uma segurança insegura. Mas o medo de que fora dessas grades não haja onde se segurar, de que ao largarem essa tábua ilusória sejam jogadas num abismo caótico, sustenta essas pessoas numa mentira que, no fundo, é patente mesmo para elas. A questão é que, na relação inalienável do homem com a verdade, só há duas instâncias – eu e ela – e se eu não quiser encará-la de frente, não posso encará-la de nenhum outro modo. Sto. Agostinho procurou Deus nas coisas e pessoas, mas só o encontrou dentro de si. Seu comentário a respeito não deixa dúvida de que sabia o que era responsabilidade pessoal:
Tão tarde Vos amei, ò beleza tão antiga e tão nova, tão tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim Vos procurava; com o meu espírito deformado, precipitava-me sobre as coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós. Chamastes, clamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e dissipastes a minha cegueira. Exalastes sobre mim o vosso perfume: aspirei-o profundamente, e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz.
O Destino – Um Presente
24 Nov 2010 Leave a Comment
(Trecho do livro “Em Busca do Sentido” de Viktor Frankl)
Pela maneira com que uma pessoa assume o seu destino inevitável, assumindo com esse destino todo o sofrimento que se lhe impõe, revela-se, mesmo nas mais difíceis situações, mesmo no último minuto de sua vida, uma abundância de possibilidades de dar sentido à existência. A pessoa pode permanecer corajosa e valorosa, digna e desinteressada, ou na luta levada ao extremo pela auto preservação, pode esquecer sua humanidade e acabar tornando-se por completo aquele animal gregário, conforme nos sugeriu a psicologia do prisioneiro do campo de concentração. Dependendo da atitude que tomar, a pessoa realiza ou não os valores que lhe são oferecidos pela situação sofrida e pelo seu pesado destino. Ela então será “digna do tormento”, ou não.
Ninguém pense que essas reflexões estejam distantes da realidade da vida e do mundo. Sem dúvida, poucas e raras são as pessoas capazes e à altura dessa elevada proposta. Pois poucos foram os que no campo de concentração mantiveram a sua plena liberdade interior e puderam alçar-se à realização daqueles valores possibilitada pelo sofrimento. E mesmo que tivesse sido um único apenas – ele bastaria como testemunha para o fato de que a pessoa interiormente pode ser mais forte que o seu destino exterior, e isso não somente no campo de concentração. Sempre e em toda parte, a pessoa está colocada diante da decisão de transformar a sua situação de mero sofrimento numa realização interior de valores. Tomemos o caso dos doentes, particularmente os incuráveis. Li certa vez a carta de um paciente relativamente jovem comunicando ao seu amigo que acabara de ficar sabendo que sua vida não duraria muito mais e que mesmo uma operação não o salvaria. Mas escrevia ainda nesta carta que justamente agora se lembrava de um filme no qual um homem encarava a sua morte com disposição, dignidade e coragem. Naquela ocasião, quando assistiu ao filme, este nosso paciente pensara que só pode ser “um presente do céu” caminhar em direção a morte com essa atitude, de cabeça erguida, e agora – escrevia ele – seu destino lhe dera essa chance.
Anos atrás vimos outros filme, “ressurreição”, baseado no romance de Tolstoi. Quem então não pensou a mesma coisa: que destinos grandiosos, quão grandes personalidade! Nós, de certo, não teremos um destino tão glorioso e por isso jamais poderemos alcançar semelhante grandeza humana… Terminada a sessão de cinema, íamos tomar um café, comer um sanduíche e acabávamos com essas estranhas ideias metafísica que, por um momento, haviam cruzado nosso pensamento.
Mas quando a gente mesmo se via colocado perante um destino grandioso, quando a gente mesmo se defrontava com a decisão de fazer frente ao destino com grandeza interior própria, já tínhamos esquecido aqueles propósitos pouco sérios e acabávamos falhando…
Para um ou outro de nós, entretanto, talvez tenha chegado o dia em que estava novamente sentado no cinema, assistindo ao mesmo filme, ou a um filme semelhante, enquanto que interiormente assistia a um outro filme, lembrando-se daquelas pessoas que realizaram em sua vida tudo isso, mais ainda do que o pode mostrar uma produção cinematográfica de cunho sentimental. Quem sabe, então, nos ocorre esse ou aquele detalhe dessa ou daquela história da grandeza interior de determinada pessoa – como por exemplo a história de uma mulher jovem morrendo no campo de concentração, da qual fui testemunha. A história é singela, não há muito o que contar, e, mesmo assim, ela soará como que inventada, de tão poética que ela se me afigura.
Essa jovem mulher sabia que teria que morrer nos próximos dias. Quando falei com ela, ainda assim estava bem disposta. “Sou grata a meu destino por ser assim tão duro comigo”, foi o que ela me disse textualmente, “Pois em minha vida burguesa anterior eu tive tudo o que quis e minhas ambições espirituais não eram lá muito sérias.” Em seus últimos dias ela estava completamente ensimesmada. “Essa árvore ali é a única amiga em minhas solidões”, disse-me ela, apontando pela janela do barracão. Lá fora um castanheiro estava em plena florescência e do catre da enferma podia-se enxergar, pela pequena janela do barracão da enfermaria, um único ramo verdejante com duas flores. “Com essa árvore eu converso muitas vezes”, disse ela. Fico meio desconcertado, sem saber como interpretar as suas palavras. Estaria ela sofrendo de alucinações e delírios? Por isso pergunto se a árvore também lhe responde. – Sim? e que lhe estaria dizendo? Respondeu-me: “Ela me disse, estou aqui, — eu — estou — aqui — eu sou a vida, a vida eterna…”
Coeficiente de felicidade
10 Nov 2010 9 Comments
in Filosofia, Meditações
Acompanhem o raciocínio:
Todos os períodos de nossas vidas são marcados por acontecimentos bons ou ruins (uns bons, outros ruins), segundo nossa avaliação pessoal. Ao longo de um dia há ocorrências boas e ocorrências ruins. Numa faixa de tempo de três meses, idem; e assim por diante.
É sempre baixa a probabilidade de que, num dado período de tempo, aconteçam apenas coisas boas ou apenas coisas ruins. Exemplo: em uma determinada semana você fará uma prova, terá um encontro com uma pessoa importante e irá a uma festa. Ou, aproximando a perspectiva: no dia 23 de março você sairá de casa pela manhã, irá à faculdade, apresentará um trabalho e à noite irá jantar com seu pai.
Nas duas sequências, é pouco provável que todos os eventos tenham desfechos que você considerará positivos, sendo conversamente pouco provável que todos dêem errado. Na sequência que dura uma semana, se for o caso de esta não ser uma semana excepcional em que todas as coisas dão certo (ou errado), você se frustrará (ou se contentará) com pelo menos um dos eventos apontados.
Esse raciocínio, inicialmente bobo, fica mais interessante quanto mais a perspectiva se fecha: ao longo de um dia, é possível classificar cada mínimo acontecimento como bom ou ruim, e, a partir da observação da sequência de positividades e negatividades que se vai formando, começa-se a ter uma noção, vaga e especulativa que seja, do que pode nos esperar adiante.
É claro que há fases em que um dos valores predomina, mas eu insisto que são excepcionais. Ou, talvez mais acertadamente, a predominância de um valor é mera questão de perspectiva. Uma fase inteiramente negativa, como uma fase inteiramente positiva, não se sustenta por muito tempo. Digo que é questão de perspectiva porque – parece –, se você abrir o foco de uma fase em que há predominância de um valor, verá que no conjunto maior de eventos há balanço, há equilíbrio de valores.
Foi pensando esparsamente nessas coisas que eu, quase sem perceber, comecei a considerar isso que seria o coeficiente de felicidade de um determinado grupo de eventos. Para usar o exemplo real da minha vida (e assim não fugir da proposta do blog), consideremos que, das muitas coisas de cujo desfecho estou no aguardo, a principal é a aceitação do meu projeto de mestrado pelo desejado orientador. Enquanto espero por essa resposta, em verdade não reclamo das pequenas eventuais frustrações que me ocorrem, pois, havendo negatividade para esses eventos menores, sobra coeficiente de felicidade para o mestrado, que é o que realmente importa.
Entenderam? Não é uma idéia bonitinha? Pena que a aplicação prática seja pouco efetiva. Só é possível afirmar que tudo tende absolutamente ao equilíbrio sob a perspectiva absoluta, o conjunto de todas as sub-perspectivas. No concurso das subfases há, penso eu, predominância do equilíbrio, o que torna os períodos monovalentes (:PPPP), em geral, excepcionais.
…
…
Falei merda?
Alguma Angústia
05 Nov 2010 5 Comments
Chegando ao fim de seis longos anos de seminários e dissertações eu me sinto cansada. Queria achar uma porta e sair correndo sem olhar para trás.
O último semestre do curso não está sendo um parto: é um aborto. Eu quase sinto dor.
Chego ao final e me preparo para vestir a coroa de espinhos que tanto mereci por ter rigor técnico, ser tão coerente, estruturalista e escrever textos “fechadinhos”.
De que servirá isso?
Estou cuspindo com vontade no prato que comi.
Ando num período muito enjoado da vida; sinto vontade de vomitar toda a argumentatividade podre que engoli ao longo desses últimos anos. Sinto vontade de ficar leve para sair voando.
Como eu fui chegar aqui?
Só quero que esse mês acabe logo e com ele essa fase estendida da minha vida. Só quero poder sair desse quarto velho, dessa cama que não é minha, dessa vida mofada.
Que minha vida mude, pois eu já mudei.
Que venha o Natal e com ele a paz com gosto de castanha.
Ateísmo
30 Oct 2010 1 Comment
in Amor ao próximo, Comportamento, Filosofia, Meditações, Modernidade, Religião
“- Os ateus… eu já tive medo deles — começou Makar. — Mas isso foi há algum tempo. Logo descobri que não passam de uns pobres coitados atrapalhados. Existem ateus de todo tipo: ricos, pobres, ignorantes, estudiosos… Alguns passam a vida toda lendo livros e procurando respostas e, quanto mais leem, mais se perdem em perguntas e não conseguem decidir nada. Outros não se dão conta de nada além de si, e nem mesmo de si; outros ainda só querem saber de farra, vivem na leviandade e não conhecem a sensibilidade. De um modo geral, são todos indecisos, atrapalhados, e procuram um sentido, uma razão nas coisas mais diversas, nos lugares mais recônditos. Alguns interpretam tudo o que veem, ou leem apenas aquilo que lhes convém, que se encaixe em sua filosofia particular. Há ainda um grande tédio. O homem do povo come o pão que o diabo amassou, dorme sobre uma cama de palha e ainda assim está alegre, encontra beleza ao redor. O rico se enche de comida e bebida, consome o bom e o melhor, regozija-se… mas vive entediado. O estudioso já caminhou por todas as ciências, mas vive afogado em tédio. Por que, vocês me perguntam? Porque não conseguem enxergar a simplicidade da beleza ao redor. A beleza está no mundo, e eles não a enxergam! Não querem, pois não estão dispostos a viver Deus e as agruras que isso representa. Negam a luz sem saber; mas o homem não vive sem se curvar, se ajoelhar. Então eles procuram um ídolo para respeitar e admirar, mesmo que seja imaginário. São idólatras, não ateus! Mas sei que há os ateus de verdade, e esses são muito mais perigosos, pois se fingem de filhos de Deus. Um ateu desses eu nunca encontrei, mas eles existem.”
— Fala de Makar Ivánovitch, o sábio ancião de “O Adolescente”, de Dostoiévski.
Claridade excessiva
27 Oct 2010 1 Comment
in Confissões
“A manhã é o fim da embriaguez, ainda que traga ressaca.”
— Dostoiévski em “O Adolescente”. Eu precisava usar essa frase como epígrafe de alguma coisa.
Durante os dias eu duvido, mas todas as noites eu tenho certeza. Vai ver é por isso que prefiro viver à noite. De dia são as máscaras, as inseguranças, os subterfúgios. De noite, a realidade plena e direta. E por isso também o escuro é mais doloroso. Durante o sol e a rotina, reina o esquecimento… A não ser quando se está na companhia de certas pessoas que trazem em si a noite: cujas presenças criam uma zona de distanciamento da realidade de segunda mão e nos remetem à realidade elementar.
Para mim, despertar e ter de entrar no dia sempre vem acompanhado disso que deve ser uma espécie de defesa, como um superego que tentasse me ajustar à frequência da normalidade, me fazendo questionar as experiências e convicções noturnas. Por isso vivo os dias como um zumbi culpado: “não deveria, não deveria ser assim”, me diz o superego.
Os dias trazem belezas que noite nenhuma substitui. Mas os dias são femininos, são receptáculos; a noite é que fecunda. Eu sou, mesmo, uma amante da masculinidade; o ente “homem” me tem cativa. A alma masculina é essa coisa assustadora de tão… inteira, autossuficiente, proativa. Enquanto eu, mulher, só consigo me derramar! (“Chorar e tremer, chorar e tremer”) E, no entanto, no melhor dos mundos possíveis aquela dureza precisa dessa fragilidade. Feminino e masculino, dia e noite. Bonito, não?
Sem contar que as noites são silenciosas. Os dias fazem aquele estardalhaço… esses macacos fúteis e brejeiros.
E-mail auto-response
19 Oct 2010 Leave a Comment
via The New Yorker
Dear Friend, Family Member, Loved One, and/or Business Associate:
Thank you for your e-mail, which, if it is under three (3) sentences long, I have read. Owing to the large volume of e-mails I’m receiving at this time, please note that it will sometimes take up to fourteen (14) calendar days, though sometimes longer (and sometimes much longer), to respond to your e-mail; in the interim, please rest assured that I am attempting to address, resolve, or think about the matter you have described, unless, of course, I’m avoiding the matter entirely. Some possible reasons for this include:
—Thinking about the matter gives me a headache.
—Thinking about the matter takes longer than forty-five (45) seconds.
—Thinking about the matter is simple enough, and takes less than forty-five (45) seconds, but, when combined with all the other e-mails in my in-box, it creates a synergy of matterdom, exacerbating the headaches mentioned at the beginning of this list.
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